sábado, 5 de fevereiro de 2011

OFF TOPIC? Não, isso é bem ON TOPIC, sempre! vol.X

Sempre achei que foi um júbilo fingido para dissimular seu desencanto, pois à primeira vista já se via, no próprio estado dos vagões, os estragos do tempo. Eram os antigos de segunda classe, mas sem assentos de vime nem vidros de subir e descer nas janelas, e com bancos de madeira curtidos pelos fundilhos lisos e calorentos dos pobres. Em comparação com o que tinha sido em outros tempos, não apenas aquele vagão, mas o trem inteiro era um fantasma de si mesmo. Antes tinha três classes. A terceira, onde viajavam os mais pobres, eram os mesmos caixotões de madeira em que transportavam bananas ou as reses de sacrifício, adaptados para passageiros com bancos longitudinais de madeira crua. A segunda classe, com assentos de vime e molduras de bronze. A primeira classe, onde viajava o pessoal do governo e os altos funcionários da companhia bananeira, com tapetes no corredor e poltronas forradas de veludo vermelho que mudavam de posição. Quando viajava o superintendente da companhia, ou sua família, ou seus convidados mais destacados, enganchavam na rabeira do trem um vagão de luxo com janelas de vidros escuros para proteger dos brilhos solares e beirais dourados, e uma varandinha descoberta com mesinhas para viajar tomando chá. Não conheci nenhum mortal que tenha visto por dentro aquela carruagem de fantasia. Meu avô tinha sido prefeito duas vezes e além do mais tinha uma noção alegre de dinheiro, mas só viajava de segunda classe quando ia com alguma mulher da família. E quando perguntavam a ele por que viajava de terceira, respondia: 'Porque não existe quarta'. No entanto, em outros tempos, o mais memorável do trem tinha sido a pontualidade. Os relógios das aldeias acertavam a hora pelo seu apito.

GARCIA MARQUEZ, Gabriel. Viver para contar. Rio de Janeiro: Record, 2003.



2 comentários:

thiago2009r disse...

Isso me fez lembrar de um caso que aconteceu com meu avô,certa vêz ele comprou dois bilhetes de 2º classe,um pra ele e outro pra minha avó,na época eles ainda moravam na roça,se não me engano a viagem era de São João del-Rei até Congo Fino,porém ao embarcar meu avô não encontrou nenhum lugar vazio nos carros de 2º classe e como os carros de 1º classe estavam quase vazios,foi num desses que ele e minha avó se acomodaram,o trem partiu e quando o cobrador foi conferir os bilhetes se dirigiu ao meu avô e tentou humilhá-lo na frente dos outros passageiros,disse que ele podia ficar ali pois os bancos eram forrados,macios e confortáveis e com aquele bilhete eles só podiam se sentar nas poltronas de madeira,meu avô ficou só ouvindo e quando o cobrador terminou o sermão meu avô falou pra ele que só estava ali porque os carros de 2º classe estavam lotados,que a culpa foi da RFFSA por ter vendido lugares sem conferir se estavam disponíveis e que se ele conseguisse dois lugares na 2º classe para ele e minha avó,eles trocariam de carro,caso contrário eles nem iam se levantar.O cabrador ficou sem graça por ter sido mau educado e nem foi conferir o fato,apenas disse que eles podiam continuar a viagem ali mesmo.
O fato é que meu avô nunca ligou se ia viajar de 2º classe pois ele gostava mesmo era de ir pendurado nas plataformas dos vagões.

Welber disse...

Muito bom, Thiago.